Arquivo da categoria: Geopolítica

Guerras Hibridas: Entendendo a Visão Russa

A anexação da Criméia pela Rússia em 2014 e os conflitos no Leste Ucraniano tomaram o mundo ocidental de surpresa. Primeiramente, pelo fato da Rússia ter atacado uma nação considerada irmã e terra do berço da civiliziação russa. Segundo, pelas táticas utilizadas pela Rússia, que incluíram os famosos “homenzinhos verdes,” tropas russas do Distrito Militar Sul com alto treinamento, porém sem insígnias. Por falta de um termo melhor, analistas ocidentais passaram a chamar a. tática russa de “Guerra Híbrida.” A questão é que a noção de hibridade não existia até 2016 na teoria militar russa, e a partir daí passou a ser utilizada para descrever ações por parte dos países ocidentais comumente conhecidas como Revoluções Coloridas. Nesse video o Prof. Berzins explica a origem do termo Guerra Híbrida, sua inadequação para explicar o modo russo de se conduzir guerras, qual é o termo que os russos utilizam para se referirem a si e sua significância no teatro de guerra.

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O COVID-19 e a Uniāo Européia – As 5 Questões Geopolíticas Parte 3

Nesse terceiro video da série sobre os desafios geopolíticos do COVID-19 a discussão é sobre a União Européia. Há um problema de convergência de desenvovimento entre os países do Norte e do Sul da União Européia. O programa de estimulos aprovado recentemente pode aprofundar as divergências e pode aumentar a instabilidade do bloco.

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A Pandemia vai Mudar a Geopolítica?

A Foreign Affairs publicou em 09 de Junho um artigo interessante – Is the Pandemic Reshaping Geopolitics? – com os grande nomes da Geopolítica respondendo se a pandemia vai mudar o cenário geopolítico mundial. É interessante ver como as opiniões divergem, mas mais especialistas acreditam que a pandemia não terá um efeito positivo na influência da China à custa dos Estados Unidos. Eu achei a pergunta muito imediatista. A pandemia por si só não muda muita coisa. Minha resposta seria que ainda é cedo para avaliar. Com pandemia ou sem, a China está com grandes ambições, há um grupo grande de países com ressentimentos consideráveis com os Estados Unidos e o resto do Ocidente e a multipolaridade veio para ficar. A grande questão é como a pandemia vai mudar a organização das cadeias produtivas e o que isso significará em termos de desenvolvimento econômico e social para os países que neste momento são relativamente periféricos. Os BRICS por exemplo. Representam 42% da população mundial, 23% do PIB global, e 30 % do território do mundo. No entanto, em outubro de 2019 o Standard & Poor’s Global Ratings declarou que colocar Brasil, Russia, India, China e Africa do Sul no mesmo grupo não faz mais sentido devido a divergências políticas e econômicas. Eu posso estar errado, mas ainda acho que, mesmo com a pandemia, os BRICS têm colaborado em várias frentes e juntos representam um contrapeso à dominância dos Estados Unidos. Ou seja, a questão não é simplesmente econômica, mas geopolítica. Falando em política, uma outra questão impotante é se e em que medida as orientações políticas dos BRICs irá interferir nas suas relações. O governo brasileiro, da India e da Africa do Sul são de direita. O da China de esquerda. O da Rússia é um híbrido, com interesses próprios que vão além da noção de esquerda e direita. Em que medida isso afeta suas relações? E com os Estados Unidos? São questões complexas, cujo desdobramentos ainda são difíceis de prever. Não há respostas simples.

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A Retirada das Tropas Americanas da Alemanha e o Gás

Uma questão que está dando o que falar aqui na Europa, é a retirada das tropas americanas da Alemanha. Para quem não acompanhou, o presidente Donald Trump anunciou a decisão de retirar 9.700 dos 34.500 soldados estacionados na Alemanha. Isso surpreendeu funcionários tanto da administração americana quanto da administração alemã. Caso isso realmente aconteça, o resultado é uma mudança dramática da postura militar dos Estados Unidos na Europa, que tem como pano de fundo muito mais que tensões entre Washington e Berlim por causa de discordâncias sobre gastos em defesa. Ainda que haja um ceticismo generalizado sobre a existência de qualquer ameaça à segurança da Europa Ocidental,  a retirada dessas tropas resultará em uma vantagem estratégica para a Rússia. Ela resulta na diminuição da capacidade operacional das forças da OTAN na Europa de uma maneira geral, ao mesmo tempo que diminui a capacidade  operacional dos Estados Unidos no Oriente Médio e na África.

Desde que assumiu a presidência, Donald Trump vem reclamando de vários países membros da OTAN não dedicarem 2% do PIB em gastos com defesa, conforme requerido no Acordo de Washington, documento de fundação da aliança. Apesar de muitas vezes em suas declarações deixar claro não entender exatamente os mecanismos de financiamento da OTAN, o presidente americano tem razão que a Alemanha e outros países membros da aliança vêm gastando muito pouco com defesa, haja vista os muitos desafios estratégicos que aliança enfrenta.

A mídia alemã sugeriu que a decisão de Trump estaria ligada à recusa da chanceler alemã Angela Merkel em atender uma reunião do G7. Contudo, ela é parte de um plano que prevê a retirada de tropas de vários teatros de guerra como Afeganistão, Síria, Iraque, Coréia do Sul e Japão. Ainda, existe a possibilidade dessas tropas serem posicionadas em outros países aliados, como a Polônia e os países bálticos. O governo alemão já foi oficialmente comunicado, mas há dúvidas se a retirada irá realmente acontecer. O Pentágono ainda não recebeu nenhuma ordem formal. Há casos, como o anúncio da retirada das tropas americanas da Síria em dezembro de 2018, onde nada aconteceu. A decisão não é unanimidade política dos Estados Unidos. Por exemplo, vinte e dois deputados republicanos do Congresso americano escreveram uma carta a Trump pedindo que reveja decisão. 

Entretanto, a questão principal não é a capacidade operacional da OTAN, nem a segurança militar da Europa. A situação deve ser interpretada como um fracasso de comunicação estratégica. No momento em que o mundo luta com o COVID-19, um anúncio como esse é extremamente problemático. Mesmo que as tropas continuem em solo alemão, a confiança nos Estados Unidos já foi abalada. Políticos, especialistas, e acadêmicos não têm informações confiáveis a respeito do que está acontecendo, resultando em um estado de confusão preocupante.

Por outro lado, a questão energética também tem um papel significante na decisão. Desde 2018 a Alemanha vem colaborando com a Rússia na construção do gasoduto Nord Stream 2. O embaixador americano para Alemanha Richard Grennel inclusive escreveu cartas para as companhias envolvidas no projeto pedindo sua interrupção e ameaçando impor sanções por causa da anexação da Crimeia pela Rússia. A resposta do governo alemão foi protestar  veementemente acusando os Estados Unidos de interferir nos interesses de países soberanos. Por outro lado, outros países da OTAN e da União Europeia também protestaram contra a construção do gasoduto.

O presidente Trump declarou “estamos protegendo a Alemanha, estamos protegendo a França, estamos protegendo todos esses países. E eles então fecham um acordo sobre um gasoduto com a Rússia em que eles estão pagando bilhões de dólares para esse país. E eu acho que isso é muito inapropriado.(…) a Alemanha é controlada completamente pela Rússia porque, com esse gasoduto, eles vão passar a receber entre 60 e 70% da sua energia da Rússia.” A dependência energética da Alemanha e de outros países da Europa por gás russo é considerada uma questão estratégica. Há receio que a Rússia possa capitalizar essa dependência politicamente tanto no nível nacional, como na Comissão Europeia e na própria OTAN.

Mas nem isso nem a ocupação da Crimeia são o que realmente interessa para os Estados Unidos. O governo americano está realmente preocupado em perder o mercado europeu para suas próprias exportações de gás natural liquefeito. Dessa forma, muito provavelmente o governo americano está procurando penalizar Alemanha por ignorar seus interesses econômicos. Contudo, a retirada das tropas americanas ainda é uma incógnita. No âmbito interno, há grande resistência política por parte das próprias forças armadas americanas e de aliados importantes. No âmbito externo, irá depender da reação da Alemanha e da União Europeia. Sendo que a construção do gasoduto já está em fase final, provavelmente há pouca margem de manobra.

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