Arquivo da tag: Geopolítica

A Geopolítica das Relações entre a Rússia e o Ocidente: Antigos Fantasmas em uma Nova Era

Meu artigo especial para o DefesaNet.

A Rússia vem se posicionando de forma cada vez mais estridente sobre a suposta expansão da OTAN em áreas que considera de seu vital interesse. Realmente, a maior parte dos países do antigo Pacto de Varsóvia e os Países Bálticos, que foram repúblicas soviéticas, são membros da OTAN atualmente. Fazer parte da aliança militar é um dos objetivos principais da política externa georgiana e a Ucrânia anunciou sua disposição em se tornar membro desde a época da Revolução Laranja.

Até recentemente, a Rússia parecia estar aceitando a expansão da OTAN com relativa calma e paciência, apesar de frequentemente citar uma promessa não documentada que esta não se expandiria para o Leste. Sobre uma possível admissão da Geórgia na OTAN sem a Ossétia do Sul e Abkhazia, o ministro de relações exteriores da Rússia Sergey Lavrov afirmou em uma entrevista para o jornal Kommersant que “nós não vamos começar uma guerra, eu prometo isso. Mas nossas relações com a Aliança do Atlântico Norte e aqueles países que fizerem isso uma prioridade serão seriamente prejudicadas (Voynu my ne nachnem, eto ya vam obeshchayu (We won’t start a war, I promise you that),” https://www.kommersant.ru/doc/4103946.

Com a anexação da Crimeia e a guerra em Dombas e Lukhansk, a Ucrânia vem se apressando em se tornar membro da OTAN. Como não cumpre os requerimentos necessários, essa questão ainda deve demorar muitos anos. Conversas nos bastidores frequentemente citam no mínimo dez anos, mas chegam até 20 ou mesmo 30 anos. Mesmo assim, há um ano vem amalgamando tropas nas fronteiras ucranianas, chegando a aproximadamente 100 mil homens. Com a Ucrânia o buraco é mais embaixo.

Analistas ocidentais, sobretudo dos think tanks de Washington, vêm defendendo a ideia de um iminente ataque russo nos próximos meses. Essa narrativa está construída na premissa simplista de um ataque convencional seguido de anexação territorial. Apesar dessa possibilidade não poder ser descartada, é necessária uma análise dos objetivos estratégicos russos na região juntamente com os mecanismos que podem ser empregados para atingi-los. A Rússia já demonstrou outras vezes uma significativa flexibilidade tanto na questão doutrinária como na ordem de batalha. A aplicação de modelos baseados em fundamentos lógicos estáticos não traz frutos, assim como isolar o caráter lógico das motivações emocionais.

Muita gente acredita que Vladimir Putin quer restabelecer a União Soviética após afirmar durante o discurso anual perante a Assembleia Federal da Federação Russa em 2005 que a “queda da União Soviética foi o maior desastre geopolítico do século. (…) Dezenas de milhões de concidadãos e compatriotas passaram a se encontrar fora do território russo. Mais, a epidemia de desintegração infectou a Rússia.” Longe de uma tragédia, para os países do antigo Pacto de Varsóvia e várias repúblicas da ex-União Soviética, o colapso do chamado socialismo real significou a liberdade. O mesmo não se aplica à Rússia. Para esta, o fim da União Soviética significou o efetivo colapso do Império Russo, o mesmo que sempre esteve em expansão desde Ivan IV Vasilyevich, o terrível. Um império de mais de 500 anos.

Até 2014, a maneira de se reconstruir o império russo também era assimétrica. Ao invés do uso de força, a ideia do Kremlin era emular um modelo próximo ao da União Européia, onde Moscou seria o equivalente à Bruxelas, chamado União Eurasiana. Dessa forma, o império poderia ser reconstruído sem violência, apelando a interesses econômicos. Não funcionou. Em 2000, a Bielorrússia, o Cazaquistão, o Quirguistão, o Tajiquistão e a Rússia estabeleceram a Comunidade Econômica Eurasiana. O Uzbequistão aderiu em 2006. Em 2003, a Bielorrússia, o Cazaquistão, a Rússia e a Ucrânia assinaram um tratado estabelecendo um espaço econômico único. A ideia não se desenvolveu por conta da Revolução Laranja na Ucrânia. Em 29 de maio de 2014, apenas a Bielorrússia, o Cazaquistão e a Rússia assinaram o acordo estabelecendo a União Econômica Eurasiana.

Para a Rússia é um fracasso geopolítico. Como o acordo foi firmado em março de 2014, portanto após a operação na Criméia, a Ucrânia não o ratificou. Sem ela, a União Econômica Eurasiana perde muito do seu escopo e suas vantagens. Segundo, dos outros países que deveriam ter participado por serem teoricamente aliados naturais da Rússia, apenas a Bielorrúsia e o Cazaquistão assinaram o acordo. Na prática, isso significou a rejeição da Rússia pelos países que compõem o que esta considera ser sua área natural de influência.

A situação se agrava, pois a Rússia não consegue aceitar que essa rejeição é o resultado de três questões fundamentais. Primeiro, há uma suspeita fundamentada desses acordos serem apenas uma maneira de subjugação econômica e política para garantir influência russa. Segundo, o modelo político e de governança russa que privilegia uma pequena casta de escolhidos às custas da população em geral e, nesse sentido, há muita corrupção, incompetência e negligência por parte de oficiais governamentais, sobretudo no nível regional. Assim, não é considerado atrativo para a população desses países em comparação com o modelo ocidental. Terceiro, questões históricas. Os Países Bálticos e outros países do extinto Pacto de Varsóvia como Polônia, Hungria, República Tcheca, entre outros consideram a União Soviética, portanto indiretamente a Rússia, como o agressor e opressor que os tirou forçadamente da civilização ocidental. Nesse sentido, a queda da União Soviética significou sua libertação.

Os dados sobre a riqueza anual disponível para adultos do Credit Suisse mostram bem a diferença resultante da escolha do modelo ocidental. No caso da Rússia, os dados de 2021 mostram que a mediana é de 5.431 dólares por adulto. Ocupando o 910 lugar, está em nível similar ao Equador, Peru, Azerbaijão e Colômbia. A média é de 27.162 dólares, mostrando uma concentração de riqueza significativa. Das ex-repúblicas da União Soviética que não se tornaram membros da União Europeia e/ou da OTAN, a Bielorrússia está em melhor situação no 670 lugar e uma mediana de 12.168 e uma média de 23.279 dólares. É imediatamente seguida pelo Cazaquistão no 680 lugar com uma mediana de 12.209 e uma média de 33.463 dólares. A Ucrânia ocupa o 1170 lugar com uma mediana de 2.529 e uma média de 13.104 dólares.

Em comparação, no 330 lugar, a mediana da Estônia é de 38.901 e a média 77.817 dólares, similar ao nível da Eslováquia, Grécia e Chipre. A Letônia encontra-se no 360 lugar com uma mediana de 33.884 e uma média de 70.545 dólares, enquanto a Lituânia está 380 lugar com uma mediana de 29.679 e uma média de 63.500 dólares. Os dados mostram uma distribuição de riqueza menos concentrada que na Rússia e na maior parte das ex-repúblicas da União Soviética.

Ao invés de fazer uma autocrítica para entender por quê essa rejeição existe, a reação da Rússia é acusar o Ocidente de realizar operações de informação, psicológicas, e de influência para negar seus direitos a essa zona de influência. Uma boa caracterização da visão russa é o artigo do General Major IN Vorobyov e do Coronel VA Kiselyov Estratégias de Destruição e Atrito: Uma Nova Versão (Стратегии сокрушения и измора в новом облике, Военная Мысль, no. 03, 2014). Publicado na revista científica oficial do Ministério da Defesa Russa, Pensamento Militar (Военная Мысль), o “Ocidente utiliza uma arma subversiva ideológica chamada ocidentalização. Ela consiste em impor na Rússia (e em outros países) um sistema social, econômico, ideológico, cultural, e modo de vida similar aos países ocidentais.

Desta forma, qualquer oposição por parte da população contra o regime político e social russo é considerada resultado de interferência ocidental. É inaceitável que a Ucrânia, bem como a Bielorrússia ou qualquer outro país da zona cinza, queira desenvolver um sistema similar ao ocidental. Isso significa o fracasso da Rússia enquanto hegemon. Como não pode oferecer uma alternativa tão atraente como o modelo ocidental, se sente ameaçada.

Esse sentimento é refletido nos documentos de segurança de defesa. A Doutrina Militar da Federação Russa determina que a ameaça principal para a Rússia é o estabelecimento dos instrumentos de revoluções coloridas (ameaças militares incluem atores externos fatores que podem resultar em um conflito envolvendo forças militares. Perigos militares são fatores que podem escalar até uma ameaça militar). O maior perigo externo são os Estados Unidos, a OTAN, e em uma escala menor a União Européia e o Ocidente em geral. O maior perigo interno são as revoluções coloridas como resultado das fragilidades internas da Rússia, incluindo questões étnicas e religiosas (Doutrina Militar da Federação Russa, 2014, http://scrf.gov.ru/security/military/document129/).

Uma visão similar é refletida no Conceito de Segurança da Federação Russa. O artigo 17 diz que “as ações de alguns países têm o objetivo de inspirar processos de desintegração na Comunidade dos Países Independentes com o objetivo de destruir os laços da Rússia com seus aliados tradicionais. Alguns países chamam a Rússia de ameaça e mesmo de inimigo militar.” O artigo 20 continua com uma referência clara às revoluções coloridas, onde “países hostis vêm tentando utilizar os problemas socioeconômicos da Federação Russa para destruir sua coesão interna, inspirar e radicalizar movimentos de protesto, apoiar grupos marginalizados and dividir a sociedade russa (Estratégia de Segurança da Federação Russa 2021, http://www.kremlin.ru/acts/bank/47046). Em outras palavras, a elite política russa se sente ameaçada pelo Ocidente e pela modernidade. É isso que está em jogo na Ucrânia e na Bielorússia neste momento.

Isso também explica por quê os países do antigo pacto de Varsóvia mais os Países Bálticos fazerem parte da OTAN e da União Européia é tão problemático. É por isso que a aproximação da Ucrânia e qualquer outro país da ex-União Soviética com o Ocidente é inaceitável. Por um lado, acaba com a possibilidade da Rússia manter uma esfera de influência no exterior próximo. Por outro, mostra à população russa que um outro modelo político, econômico e social é possível. A situação vem piorando ainda mais com a ajuda estadunidense à Ucrânia e com o posicionamento de tropas e armamentos da OTAN na Polônia e nos Países Bálticos, incluindo sistemas de defesa antiaérea com capacidade de neutralizar os sistemas de mísseis russos.

Finalmente, mas não menos importante, a Rússia não acredita que a OTAN é uma aliança benigna com foco apenas na defesa dos seus membros e que o verdadeiro interesse dos Estados Unidos é promover democracia e direitos humanos. O Kremlin está convencido que a Operação Força Deliberada (Operation Deliberate Force) na Bósnia-Herzegovina é um dos primeiros exemplos da OTAN atacando em lugar de defender seus estados membros. O envolvimento da OTAN no Afeganistão é compreensível e a própria Rússia ofereceu ajuda aos Estados Unidos, mas acredita que a operação no Iraque foi simplesmente um pretexto para empresas estadunidenses lucrarem. Também acredita que a Primavera Árabe foi o resultado de operações secretas estadunidenses e que a intervenção da OTAN em 2011 teve o objetivo de estabelecer um regime favorável à Washington por causa das reservas líbias de petróleo.

Assim, a Rússia está convencida que a OTAN é um instrumento de dominação ocidental, especialmente interesses econômicos estadunidenses. Os Estados Unidos usam a retórica de democracia e direitos humanos como uma desculpa para garantir seus interesses econômicos por força, especialmente se reservas de petróleo estão em questão (Entrevista com o ministro de relações exteriores da Federação Russa Sergey Lavrov para o programa Grande Jogo do Primeiro Canal em 13 de Janeiro de 2022, https://www.youtube.com/watch?v=hHCV-4Cx8eI.).

O Ocidente vem corretamente acusando o governo russo de ser anti-democrático e de violar direitos humanos. A Rússia tem vastas reservas de petróleo e gás natural. Muitos em Moscou estão convencidos que a Rússia é o próximo alvo das supostas operações de influência dos Estados Unidos. O objetivo seria promover uma revolução colorida, mudar o governo atual por um favorável aos interesses de Washington e vender os ativos mais valiosos da Rússia para empresas estadunidenses. Como esta narrativa está muito enraizada, não há nada que a OTAN ou Estados Unidos possam fazer para convencer o Kremlin que esta não reflete a realidade.

As ambições estratégicas da Rússia devem ser compreendidas neste contexto. A narrativa do restabelecimento da União Soviética não faz sentido, pois não há uma base ideológica que a justifique. Certamente a ideologia da elite política russa não é marxista-leninista. Da mesma forma, não há suporte político para uma volta ao czarismo. Finalmente, operações militares de grande escala são custosas. Apesar da Rússia ter custos operacionais mais baixos, levando-se as operações no Iraque e no Afeganistão como referência, pode-se estimar os custos totais (operacional, segurança interna, veteranos, financiamento) anuais em aproximadamente 300 bilhões de dólares ou o equivalente a aproximadamente cinco anos do orçamento de defesa russo.

Os resultados do processo de modernização das forças armadas russas são notáveis. Contudo, a Rússia não dispõe de capacidade econômica e militar para sustentar um cenário convencional de longo prazo com resistência. Apesar disso, é completamente capaz de engajar em operações menores em suas áreas próximas de interesse e tem poderio militar suficiente para atingir a maior parte dos seus objetivos estratégicos. Assim, como o próprio Presidente V. V. Putin declarou em 2006 em seu discurso anual ao Parlamento russo, “nossas ações devem ser baseadas na superioridade intelectual.” Elas devem ser assimétricas e menos onerosas.”

A questão política também deve ser considerada. No mínimo, uma operação de grande escala significa sanções econômicas mais rigorosas e jovens russos voltando para casa em caixões. Mães russas são uma força política que não deve ser ignorada, mas a população russa atual não é a mesma dos anos 1940. Grande parte da popularidade do Presidente VV Putin deve-se à ideia dele ser responsável por terminar o caos dos anos 1990 e aumentar o padrão de vida da população. Uma guerra de larga escala pode colocar em risco a estabilidade do regime.

Neste momento, a Rússia tem aproximadamente 100 mil homens na fronteira com a Ucrânia. Os serviços de inteligência ocidentais, cientistas políticos, jornalistas e outros estão convencidos que a Rússia pode iniciar uma invasão a qualquer momento. Apesar dessa possibilidade existir, as ações russas parecem estar seguindo o conceito de escalar para desescalar. Apesar desse conceito ter sido desenvolvido no escopo de guerra nucleares, seus princípios são aplicáveis em situações não-nucleares. O princípio é simples. Cria-se um impasse para forçar o oponente a negociar uma solução aceitável para, nesse caso, a Rússia. Dependendo do resultado das negociações, ocorre o processo de desescalada ou se vai para o próximo nível. O processo não é linear. Um dos problemas nesse caso é que para os Estados Unidos e a OTAN a escalada militar é um processo linear. Isso pode resultar em uma escalada ainda mais rápida.

Essa escalada deve ser compreendida como resultado de alguns fatores interdependentes. Primeiro, o suporte dos Estados Unidos e, sobretudo, da OTAN à Ucrânia diminui cada vez mais as possibilidades da Rússia influenciar o país. Segundo, a crescente probabilidade da OTAN abrir negociações com a Ucrânia, ainda que esse processo possa demorar décadas para se realizar. Terceiro, as ações militares russas na Ucrânia em 2014 revitalizaram a OTAN, bem como aumentou o receio dos Países Bálticos e da Polônia de uma possível ação híbrida por parte da Rússia. Isso resultou no desdobramento de tropas e equipamentos da OTAN para a região.

Sun Tzu dizia que é necessário se colocar no lugar do outro para entender suas motivações estratégicas. É possível compreender as preocupações da Rússia, mas não é possível concordar com elas. É uma situação paradigmática: a segurança da Rússia depende da insegurança dos países em sua volta. Em dezembro de 2021, a Rússia apresentou um ultimato para remodelar a arquitetura de segurança europeia. É o terceiro desde 2007. O primeiro foi o discurso na Conferência de Segurança de Munique em 2017 e o segundo pode ser considerado a ocupação da Crimeia em 2014. O Ocidente considera esse ultimato inaceitável enquanto a Rússia diz que é um “pacote” não negociável. Não só inclui uma cláusula estabelecendo a impossibilidade de qualquer país da ex-União Soviética se tornar membro da OTAN, mas inclui outra limitando o desdobramento de tropas e equipamentos em países fronteiriços sem a autorização da Rússia. Ou seja, em caso de um ataque russo, a OTAN teria que pedir autorização à Rússia para iniciar uma ação contra ela. A maior parte das cláusulas é inaceitável.

Apesar da retórica deste terceiro ultimato ser um “pacote,” provavelmente é possível negociar pontos separadamente para desescalar a situação atual. Certas questões são mais urgentes que outras. Para a Rússia, o primeiro passo para se desescalar a situação presente é os Estados Unidos prometerem que a Ucrânia jamais irá se tornar membro da OTAN. O segundo é aplicar o mesmo princípio para outros países, incluindo a Geórgia. O terceiro é remover as forças militares da Polônia e dos Países Bálticos. Dessa forma, é impossível se chegar a um acordo que satisfaça ambas as partes.

A Rússia considera o governo Biden, a OTAN e outros aliados fragilizados, fragmentados e incapazes de decidir. Ainda, que o governo Biden está mais preocupado com a China e deseja que a Europa cuide mais da sua própria segurança. Portanto, não está blefando. Acredita que está com a iniciativa, tem apetite ao risco, está preparada para utilizar força militar. Existe uma possibilidade real de em um momento romper relações diplomáticas com o Ocidente por acreditar que não faz sentido continuá-las.

Como o processo de escalada está se tornando um círculo vicioso em ascensão, é necessário encontrar pontos de interesse comum para promover o diálogo, ao mesmo tempo fazendo-se claro que há linhas vermelhas para o Ocidente. Ao mesmo tempo, a Rússia tem que aceitar que a expansão da OTAN para o Leste não foi o resultado de operações de influência dos Estados Unidos. Esses países basicamente imploraram para serem aceitos por temor de uma Rússia revanchista. Assim, a Rússia tem que compreender que vários países a consideram uma ameaça real, não acreditam em garantias de sua parte e não querem ser parte da sua esfera de influência. Ainda, deve levar em consideração que havia discussões sérias sobre a OTAN não ser mais necessária. Em um certo sentido, ao anexar a Criméia e iniciar a guerra no leste da Ucrânia, a Rússia promoveu o renascimento da OTAN.

Ao mesmo tempo, o Ocidente tem que focar em pontos de interesse comum para desescalar a situação. Eles incluem fazer a implementação dos Acordos de Minsk, renegociar os Acordos de Mísseis Anti-Balísticos e o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário. Os Estados Unidos se retiraram por acreditar que a Rússia estava burlando os acordos. Ainda, cooperação no combate ao terrorismo, pesquisa nuclear espacial incluindo propulssão de foguetes e utilização re recursos espaciais. Outra área de possível colaboração é a cibernética. Nesse caso, é possível encontrar pontos de interesse comum imediatos no combate ao crime organizado e lavagem de dinheiro.

Como dizem, o tango se dança a dois.

Facebooktwitterlinkedinmail

A Retirada das Tropas Americanas da Alemanha e o Gás

Uma questão que está dando o que falar aqui na Europa, é a retirada das tropas americanas da Alemanha. Para quem não acompanhou, o presidente Donald Trump anunciou a decisão de retirar 9.700 dos 34.500 soldados estacionados na Alemanha. Isso surpreendeu funcionários tanto da administração americana quanto da administração alemã. Caso isso realmente aconteça, o resultado é uma mudança dramática da postura militar dos Estados Unidos na Europa, que tem como pano de fundo muito mais que tensões entre Washington e Berlim por causa de discordâncias sobre gastos em defesa. Ainda que haja um ceticismo generalizado sobre a existência de qualquer ameaça à segurança da Europa Ocidental,  a retirada dessas tropas resultará em uma vantagem estratégica para a Rússia. Ela resulta na diminuição da capacidade operacional das forças da OTAN na Europa de uma maneira geral, ao mesmo tempo que diminui a capacidade  operacional dos Estados Unidos no Oriente Médio e na África.

Desde que assumiu a presidência, Donald Trump vem reclamando de vários países membros da OTAN não dedicarem 2% do PIB em gastos com defesa, conforme requerido no Acordo de Washington, documento de fundação da aliança. Apesar de muitas vezes em suas declarações deixar claro não entender exatamente os mecanismos de financiamento da OTAN, o presidente americano tem razão que a Alemanha e outros países membros da aliança vêm gastando muito pouco com defesa, haja vista os muitos desafios estratégicos que aliança enfrenta.

A mídia alemã sugeriu que a decisão de Trump estaria ligada à recusa da chanceler alemã Angela Merkel em atender uma reunião do G7. Contudo, ela é parte de um plano que prevê a retirada de tropas de vários teatros de guerra como Afeganistão, Síria, Iraque, Coréia do Sul e Japão. Ainda, existe a possibilidade dessas tropas serem posicionadas em outros países aliados, como a Polônia e os países bálticos. O governo alemão já foi oficialmente comunicado, mas há dúvidas se a retirada irá realmente acontecer. O Pentágono ainda não recebeu nenhuma ordem formal. Há casos, como o anúncio da retirada das tropas americanas da Síria em dezembro de 2018, onde nada aconteceu. A decisão não é unanimidade política dos Estados Unidos. Por exemplo, vinte e dois deputados republicanos do Congresso americano escreveram uma carta a Trump pedindo que reveja decisão. 

Entretanto, a questão principal não é a capacidade operacional da OTAN, nem a segurança militar da Europa. A situação deve ser interpretada como um fracasso de comunicação estratégica. No momento em que o mundo luta com o COVID-19, um anúncio como esse é extremamente problemático. Mesmo que as tropas continuem em solo alemão, a confiança nos Estados Unidos já foi abalada. Políticos, especialistas, e acadêmicos não têm informações confiáveis a respeito do que está acontecendo, resultando em um estado de confusão preocupante.

Por outro lado, a questão energética também tem um papel significante na decisão. Desde 2018 a Alemanha vem colaborando com a Rússia na construção do gasoduto Nord Stream 2. O embaixador americano para Alemanha Richard Grennel inclusive escreveu cartas para as companhias envolvidas no projeto pedindo sua interrupção e ameaçando impor sanções por causa da anexação da Crimeia pela Rússia. A resposta do governo alemão foi protestar  veementemente acusando os Estados Unidos de interferir nos interesses de países soberanos. Por outro lado, outros países da OTAN e da União Europeia também protestaram contra a construção do gasoduto.

O presidente Trump declarou “estamos protegendo a Alemanha, estamos protegendo a França, estamos protegendo todos esses países. E eles então fecham um acordo sobre um gasoduto com a Rússia em que eles estão pagando bilhões de dólares para esse país. E eu acho que isso é muito inapropriado.(…) a Alemanha é controlada completamente pela Rússia porque, com esse gasoduto, eles vão passar a receber entre 60 e 70% da sua energia da Rússia.” A dependência energética da Alemanha e de outros países da Europa por gás russo é considerada uma questão estratégica. Há receio que a Rússia possa capitalizar essa dependência politicamente tanto no nível nacional, como na Comissão Europeia e na própria OTAN.

Mas nem isso nem a ocupação da Crimeia são o que realmente interessa para os Estados Unidos. O governo americano está realmente preocupado em perder o mercado europeu para suas próprias exportações de gás natural liquefeito. Dessa forma, muito provavelmente o governo americano está procurando penalizar Alemanha por ignorar seus interesses econômicos. Contudo, a retirada das tropas americanas ainda é uma incógnita. No âmbito interno, há grande resistência política por parte das próprias forças armadas americanas e de aliados importantes. No âmbito externo, irá depender da reação da Alemanha e da União Europeia. Sendo que a construção do gasoduto já está em fase final, provavelmente há pouca margem de manobra.

Facebooktwitterlinkedinmail

Princípios da Política de Dissuasão Nuclear da Federação Russa

Dia 2 de Junho Putin assinou os “Princípios da Política de Estado da Federação Russa no Campo da Dissuasão Nuclear”. Embora não tenha trazido nada de novo, alguns pontos são importantes a serem observados. Veja abaixo minha tradução (ruim) do documento com as partes importantes em vermelho e meus comentários em verde.

Princípios da Política de Estado da Federação Russa no Campo da Dissuasão Nuclear

I. Geral 

1. Esses princípios são um documento de planejamento estratégico no campo da defesa e refletem as opiniões oficiais sobre a essência da dissuasão nuclear, determinam quais perigos e ameaças militares devem ser neutralizados, os princípios da dissuasão nuclear e as condições em que a dissuasão nuclear deve ser aplicada e as condições para o emprego de armas nucleares. 

2. Uma das prioridades de defesa mais importantes é garantir a dissuasão de um potencial adversário da agressão contra a Federação Russa e / ou aliados. A dissuasão deve ser alcançada pela totalidade do poder militar da Federação Russa, incluindo armas nucleares.

3. A política estatal da Federação Russa no campo da dissuasão nuclear (doravante denominada política estadual no campo da dissuasão nuclear) é um conjunto de políticas coordenadas, militares, técnico-militares, diplomáticas, econômicas, informações e outras medidas implementadas pela força e meios de dissuasão nuclear, para impedir agressões contra a Federação Russa e (ou) seus aliados. 

4. A política do estado no campo da dissuasão nuclear é de natureza defensiva. Tem o objetivo de manter o potencial das forças nucleares em um nível suficiente para garantir a dissuasão nuclear e proteger a soberania e a integridade territorial do Estado, dissuadindo um potencial adversário de agressão contra a Federação Russa e (ou) seus aliados e, em particular, o evento de um conflito militar – impedindo a escalada das hostilidades e sua cessação em condições aceitáveis ​​para a Federação Russa e (ou) seus aliados. 

5. A Federação Russa considera as armas nucleares exclusivamente como um meio de dissuasão, cuja utilização é uma medida extrema em casos obrigatórios. Está envidando todos os esforços necessários para reduzir a ameaça nuclear e impedir o agravamento das relações interestaduais que podem provocar conflitos militares, inclusive nucleares. 

6. O marco regulatório desses Princípios é constituído pela Constituição da Federação Russa, princípios e normas geralmente reconhecidos do direito internacional, tratados internacionais da Federação Russa no campo da defesa e controle de armas, leis constitucionais federais, leis federais, outros atos legais regulamentares e documentos que regulam questões de defesa e segurança. 

7. As disposições desses princípios se referem a todos os órgãos do governo federal e a outros órgãos e organizações governamentais envolvidos na dissuasão nuclear. 

8. Esses Fundamentos podem ser mudados dependendo de fatores externos e internos que afetam a prestação de defesa. 

II A Essência do Dissuasão Nuclear

9. A dissuasão nuclear visa garantir que o adversário em potencial entenda a inevitabilidade da retaliação no caso de uma agressão contra a Federação Russa e (ou) seus aliados. 

10. A dissuasão nuclear é assegurada pelas forças de combate das Forças Armadas e pelos meios capazes de usar armas nucleares para infligir danos inaceitáveis ​​a um inimigo em potencial em qualquer situação, bem como a vontade e determinação da Federação Russa de usar tais armas.

11. A dissuasão nuclear é realizada continuamente em tempo de paz, durante o período de ameaça direta de agressão e em tempo de guerra, até o início do uso de armas nucleares. 

12. Os principais perigos militares que, dependendo da mudança na situação político-militar e estratégica, podem se desenvolver em ameaças militares para a Federação Russa (ameaças de agressão) e que pode ser neutralizado pela dissuasão nuclear, são: 

a) o construção de capacidades militares por um potencial adversário, incluindo armas e sistemas nucleares perto da Federação Russa e seus aliados, incluindo áreas marítimas; 

b) a implantação de sistemas e meios de defesa antimísseis balísticos, mísseis balísticos e de cruzeiro de médio e curto alcance armas não nucleares e hipersônicas de alta precisão, veículos aéreos não tripulados de choquee armas de energia direta por estados que consideram a Rússia Federação como adversário em potencial;

Por muitos anos, as Forças Armadas russas vêm desenvolvendo, tanto no nível doutrinário quanto no operacional, a idéia de que as armas não nucleares têm o mesmo efeito estratégico e tático que as armas nucleares. Gerasimov mencionou essa questão muitas vezes nos últimos três / quatro anos. O desenvolvimento das novas armas hipersônicas reflete isso. Existem duas questões a serem observadas. Primeiro, os mísseis hipersônicos podem usar stealth plasma para criar uma nuvem de plasma ao redor do míssil, absorvendo qualquer onda de rádio. Isso resulta no míssil invisível aos radares e capaz de penetrar nos sistemas de defesa aérea. Um exemplo é o russo 3M22 Tsirkon e o míssel BrahMos II, ainda em desenvolvimento com a Índia.

Muitos dos programas soviéticos ainda estão vivos. Há algum tempo, li um artigo chamado “Armas do século XXI”. Coisas aterrorizantes, incluindo armas biológicas não letais, terremotos, armas radiológicas, microondas e outras. Obviamente, a questão é sobre capacidade. Eles têm capacidade tecnológica para desenvolver essas armas? Alguns sim, mas ainda assim a maior parte da tecnologia da Rússia é dos tempos soviéticos. É muito dependente da tecnologia ocidental. Ainda assim, eles estão tentando e a idéia de armas de energia direta tem alguma popularidade, uma vez que geralmente aparece em documentos doutrinários.

c) a criação e implantação no espaço de sistemas de defesa e ataque de mísseis;

O programa Guerra nas Estrelas de Reagan os traumatizou. No nível doutrinário, eles têm mencionado constantemente o espaço sideral como a próxima fronteira de guerra. 

d) a presença de armas nucleares e (ou) outros tipos de armas de destruição em massa que possam ser usadas contra a Federação Russa e (ou) seus aliados, bem como meios de entrega desses tipos de armas em estados não-aliados; 

e) a proliferação descontrolada de armas nucleares, seus meios de entrega, tecnologias e equipamentos para sua fabricação; 

f) implantação de armas nucleares e seus veículos de entrega nos territórios de estados não nucleares.

Esta é uma mensagem clara para os Estados Bálticos e a Polônia. Havia alguns think tanks em Washington flertando com a idéia.

13. A Federação Russa realiza dissuasão nuclear em relação a estados individuais e coalizões militares (blocos, sindicatos) que consideram a Federação Russa como um potencial adversário e possuem armas nucleares e (ou) outros tipos de armas de destruição em massa ou potencial de combate significativo das forças gerais.

Obviamente, estão falando da Otan aqui.

14. Ao realizar a dissuasão nuclear, a Federação Russa leva em consideração o uso de capacidades ofensivas de um adversário em potencial nos territórios de outros estados, incluindo mísseis de cruzeiro e balísticos, aeronaves hipersônicas, atacar veículos aéreos não tripulados, armas de energia direcionada, antimísseis defesa, um aviso sobre um ataque com míssil nuclear, armas nucleares e (ou) outros tipos de armas de destruição em massa que podem ser usadas contra a Federação Russa e (ou) seus aliados.

Veja acima.

15. Os princípios da dissuasão nuclear são: 

a) cumprimento das obrigações internacionais de controle de armas; 

b) a continuidade de medidas para garantir a dissuasão nuclear; 

c) a adaptabilidade da dissuasão nuclear a ameaças militares; 

d) a incerteza para um potencial adversário da escala, hora e local do possível uso de forças e meios de dissuasão nuclear; 

e) centralização da administração estadual das atividades dos órgãos e organizações executivas federais envolvidas na dissuasão nuclear;

Nada de novo aqui, mas isso é claramente sobre o Centro de Gerenciamento de Defesa Nacional.

f) a racionalidade da estrutura e composição das forças e meios de dissuasão nuclear, bem como sua manutenção em um nível minimamente suficiente para cumprir as tarefas; 

g) manter a disponibilidade constante da parte alocada das forças e meios de dissuasão nuclear para uso em combate. 

16. As forças de dissuasão nuclear da Federação Russa incluem forças nucleares terrestres, marítimas e aéreas. 

III Condições para a Federação Russa usar armas nucleares: 

17. A Federação Russa se reserva o direito de usar armas nucleares em resposta ao uso de armas nucleares e outras armas de destruição em massa contra ela e (ou) seus aliados, bem como no evento de agressão contra a Federação Russa usando armas convencionais quando a própria existência do estado estiver ameaçada.

Mais uma vez, a idéia de armas convencionais e nucleares com efeito estratégico e tático semelhante.

18. A decisão sobre o emprego de armas nucleares é tomada pelo Presidente da Federação Russa. 

19. As condições que determinam a possibilidade de emprego de armas nucleares pela Federação Russa são: 

a) o recebimento de informações confiáveis ​​sobre o lançamento de mísseis balísticos que atacam o território da Federação Russa e (ou) seus aliados; 

b) o uso pelo adversário de armas nucleares ou outros tipos de armas de destruição em massa nos territórios da Federação Russa e (ou) seus aliados; 

c) o impacto do inimigo nas instalações militares ou estatais críticas da Federação Russa, cujo fracasso levará à interrupção da resposta das forças nucleares; 

d) agressão contra a Federação Russa com o uso de armas convencionais, quando a própria existência do Estado é comprometida. 

20. O Presidente da Federação Russa pode, se necessário, informar a liderança político-militar de outros Estados e (ou) organizações internacionais da prontidão da Federação Russa em usar armas nucleares ou da decisão de usá-las, também como o fato de seu uso. 

IV Tarefas e funções das agências governamentais federais, de outras agências e organizações governamentais para a implementação da política estadual no campo da dissuasão nuclear 

21. O Presidente da Federação Russa exerce orientação geral sobre as políticas estaduais no campo da dissuasão nuclear. 

22. O Governo da Federação Russa está desenvolvendo medidas para implementar políticas econômicas destinadas a manter e desenvolver instalações de dissuasão nuclear, além de formular e implementar políticas externas e de informação no campo da dissuasão nuclear. 

23. O Conselho de Segurança da Federação Russa estabelece as principais diretrizes da política militar no campo da dissuasão nuclear e também coordena as atividades dos órgãos executivos e organizações federais envolvidos na implementação das decisões adotadas pelo Presidente da Federação Russa em relação a dissuasão nuclear. 

24. O Ministério da Defesa da Federação Russa, através do Estado-Maior General das Forças Armadas da Federação Russa, planeja e conduz diretamente medidas organizacionais e militares no campo da dissuasão nuclear. 

E Gerasimov é o patrão.  

25. Outros órgãos e organizações executivos federais participam da implementação das decisões adotadas pelo Presidente da Federação Russa sobre dissuasão nuclear, de acordo com sua autoridade. 

Facebooktwitterlinkedinmail

EUA e China: Rumo a uma Guerra Fria?

Em janeiro desse ano a China e os Estados Unidos assinaram um acordo comercial chamado Phase One. O acordo prevê o aumento de compras de produtos americanos e serviços nos próximos dois anos em aproximadamente 200 bilhões de dólares, incluindo USD 32 bilhões em produtos agrícolas, USD 52,4 bilhões no setor de energia e USD 78 bilhões em produtos manufaturados. Ainda que a China não tenha mudado suas práticas comerciais abusivas desde então, até meados de março o presidente Trump continuava a elogiar várias vezes o presidente chinês Xi Jinping  pela sua liderança durante a crise do COVID-19 da China. Inclusive citou o trabalho profissional dos chineses ao mesmo tempo em que expressou o seu ilimitado respeito e amizade com o presidente Xi Jinping.

Apesar de haver esperanças dos dois países estarem entrando numa nova fase, a crise do coronavírus resultou em uma deterioração aguda em suas relações, a maior nas últimas décadas. A pandemia poderia ter resultado em uma oportunidade para o desenvolvimento de uma cooperação mais profunda, incluindo ações conjuntas para deter a epidemia, desenvolver uma vacina ou um remédio, e ainda ações conjuntas para reduzir o impacto da depressão econômica a nível mundial. 

No entanto, os dois países entraram em uma guerra retórica sobre quem é culpado pela pandemia. O governo chinês vem apresentando a narrativa que soldados americanos levaram o vírus para Wuhan por ocasião dos Jogos Militares Mundiais em outubro de 2019. Ao mesmo tempo, o presidente Trump alegou repetidas vezes que os Estados Unidos teriam provas do COVID-19 ter sido desenvolvido em um laboratório chinês na mesma cidade. Até hoje nenhum dos dois governos apresentou evidências substanciando suas narrativas. É consenso entre a comunidade científica que o vírus se desenvolveu na natureza.

Nas últimas semanas, a competição entre os dois países está indo para a arena ideológica. O governo chinês vem utilizando sua máquina de propaganda para se apresentar como um sucesso na administração da pandemia e um líder mundial confiável e responsável, que está suprindo o mundo com produtos médicos de necessidade urgente. A mídia chinesa vem atacando também o modelo de governança Ocidental, especialmente o americano, acentuando o fim da supremacia ocidental dos últimos trinta anos. Veja meu video tratando deste assunto clicando aqui. A China também desenvolveu um video ridicularizando a resposta americana à pandemia (abaixo). Outros fatores que também influenciam negativamente as relações entre os dois países são as tensões no Mar da China Meridional, a questão de Formosa e de Hong Kong, e as práticas comerciais e tecnológicas da China. Essas 

As relações entre os dois países devem piorar como consequência de dois problemas: um estrutural e outro político. O problema estrutural é proveniente de 40 anos de políticas neoliberais, que resultaram na transformação estrutural da economia americana. Nesse período, houve uma realocação de parte do setor manufatureiro dos Estados Unidos e do resto do Ocidente para a China. isso gerou dois problemas. Por um lado havia a crença que o setor de serviços absorveria a mão-de-obra dispensada do setor produtivo, o que não aconteceu. Vários trabalhadores passaram por um processo de precarização do trabalho ou “uberização” em um processo similar ao analisado pelo Paulo Gala nesse texto.

Ao mesmo tempo a China vem passando por um processo intenso de transformação econômica e social, que vem resultando no desenvolvimento de uma economia complexa. Assim, se antes a China tinha uma inserção subordinada nas cadeias produtivas globais, ao desenvolver a complexidade ela passa a concorrer diretamente com empresas americanas e europeias. O maior exemplo nesse momento é a Huawei e a rede celular 5G. Apesar da retórica econômica dizer que competição é sempre bom, os Estados Unidos vêm tentando limitar a concorrência chinesa em setores complexos. Um exemplo são as ações para limitar o acesso a componentes eletrônicos de tecnologia americana, como por exemplo o chip dos telefones celulares Huawei.

O problema político é resultante desses problemas estruturais. Durante a primeira campanha, um dos principais pontos de Trump foi a promessa de trazer de volta as manufaturas que haviam sido realocadas na China. Contudo, o processo de localização industrial segue a lógica econômica e não a lógica política, e esse processo ficou muito aquém do esperado.

O COVID-19 oferece uma oportunidade para alterar a lógica econômica em nome da segurança das cadeias produtivas e dos estoques estratégicos em tempos de emergência. Contudo, mesmo que haja uma transformação nas cadeias produtivas globais, não é possível retornar à estrutura econômica de 40 anos atrás. Para compensar custos mais elevados de mão-de-obra, a geração de empregos em um hipotético boom manufatureiro nos Estados Unidos será baixa devido ao alto nível tecnológico das linhas de produção. Assim, o problema não se resolve.

Assim, os ataques de Trump contra a China servem a três objetivo. Primeiro, para diminuir o apoio a democratas populistas. Segundo, para desviar a atenção da população do fracasso do governo americano no combate à pandemia. Terceiro, para ter um inimigo externo como elemento de campanha política. Pesquisas mostram que 31% dos eleitores americanos consideram a China como inimiga ao mesmo tempo que 23% consideram como nem inimiga nem aliada. O candidato democrata Joe Biden acusou Trump de ser condescendente demais com a China em um recente comercial de campanha (veja abaixo), prometendo ser mais duro. Levando-se em consideração que a China vem adotando uma diplomacia cada vez mais assertiva, é de se esperar que as relações sino-americanas estão longe de se acalmar.

Facebooktwitterlinkedinmail

As Cinco Questões Geopolíticas – Parte 1

Com o COVID-19 as grandes questões da geopolítica ficaram um pouco esquecidas. Este a é o primeiro de cinco video-aulas sobre os desafios do mundo de hoje. São eles:

1. O fim do momento unipolar dos Estados Unidos

2. O fim ou redução da intensidade da globalização

3. O colapso da União Europeia

4. Os desafios do Oriente Médio

5. Mudança climática e aquecimento global

Nesta primeira parte o Prof. Berzins analisa de maneira direta e simples as questões principais sobre as transformações na divisão de poder global.

Facebooktwitterlinkedinmail