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A Pandemia vai Mudar a Geopolítica?

A Foreign Affairs publicou em 09 de Junho um artigo interessante – Is the Pandemic Reshaping Geopolitics? – com os grande nomes da Geopolítica respondendo se a pandemia vai mudar o cenário geopolítico mundial. É interessante ver como as opiniões divergem, mas mais especialistas acreditam que a pandemia não terá um efeito positivo na influência da China à custa dos Estados Unidos. Eu achei a pergunta muito imediatista. A pandemia por si só não muda muita coisa. Minha resposta seria que ainda é cedo para avaliar. Com pandemia ou sem, a China está com grandes ambições, há um grupo grande de países com ressentimentos consideráveis com os Estados Unidos e o resto do Ocidente e a multipolaridade veio para ficar. A grande questão é como a pandemia vai mudar a organização das cadeias produtivas e o que isso significará em termos de desenvolvimento econômico e social para os países que neste momento são relativamente periféricos. Os BRICS por exemplo. Representam 42% da população mundial, 23% do PIB global, e 30 % do território do mundo. No entanto, em outubro de 2019 o Standard & Poor’s Global Ratings declarou que colocar Brasil, Russia, India, China e Africa do Sul no mesmo grupo não faz mais sentido devido a divergências políticas e econômicas. Eu posso estar errado, mas ainda acho que, mesmo com a pandemia, os BRICS têm colaborado em várias frentes e juntos representam um contrapeso à dominância dos Estados Unidos. Ou seja, a questão não é simplesmente econômica, mas geopolítica. Falando em política, uma outra questão impotante é se e em que medida as orientações políticas dos BRICs irá interferir nas suas relações. O governo brasileiro, da India e da Africa do Sul são de direita. O da China de esquerda. O da Rússia é um híbrido, com interesses próprios que vão além da noção de esquerda e direita. Em que medida isso afeta suas relações? E com os Estados Unidos? São questões complexas, cujo desdobramentos ainda são difíceis de prever. Não há respostas simples.

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A Retirada das Tropas Americanas da Alemanha e o Gás

Uma questão que está dando o que falar aqui na Europa, é a retirada das tropas americanas da Alemanha. Para quem não acompanhou, o presidente Donald Trump anunciou a decisão de retirar 9.700 dos 34.500 soldados estacionados na Alemanha. Isso surpreendeu funcionários tanto da administração americana quanto da administração alemã. Caso isso realmente aconteça, o resultado é uma mudança dramática da postura militar dos Estados Unidos na Europa, que tem como pano de fundo muito mais que tensões entre Washington e Berlim por causa de discordâncias sobre gastos em defesa. Ainda que haja um ceticismo generalizado sobre a existência de qualquer ameaça à segurança da Europa Ocidental,  a retirada dessas tropas resultará em uma vantagem estratégica para a Rússia. Ela resulta na diminuição da capacidade operacional das forças da OTAN na Europa de uma maneira geral, ao mesmo tempo que diminui a capacidade  operacional dos Estados Unidos no Oriente Médio e na África.

Desde que assumiu a presidência, Donald Trump vem reclamando de vários países membros da OTAN não dedicarem 2% do PIB em gastos com defesa, conforme requerido no Acordo de Washington, documento de fundação da aliança. Apesar de muitas vezes em suas declarações deixar claro não entender exatamente os mecanismos de financiamento da OTAN, o presidente americano tem razão que a Alemanha e outros países membros da aliança vêm gastando muito pouco com defesa, haja vista os muitos desafios estratégicos que aliança enfrenta.

A mídia alemã sugeriu que a decisão de Trump estaria ligada à recusa da chanceler alemã Angela Merkel em atender uma reunião do G7. Contudo, ela é parte de um plano que prevê a retirada de tropas de vários teatros de guerra como Afeganistão, Síria, Iraque, Coréia do Sul e Japão. Ainda, existe a possibilidade dessas tropas serem posicionadas em outros países aliados, como a Polônia e os países bálticos. O governo alemão já foi oficialmente comunicado, mas há dúvidas se a retirada irá realmente acontecer. O Pentágono ainda não recebeu nenhuma ordem formal. Há casos, como o anúncio da retirada das tropas americanas da Síria em dezembro de 2018, onde nada aconteceu. A decisão não é unanimidade política dos Estados Unidos. Por exemplo, vinte e dois deputados republicanos do Congresso americano escreveram uma carta a Trump pedindo que reveja decisão. 

Entretanto, a questão principal não é a capacidade operacional da OTAN, nem a segurança militar da Europa. A situação deve ser interpretada como um fracasso de comunicação estratégica. No momento em que o mundo luta com o COVID-19, um anúncio como esse é extremamente problemático. Mesmo que as tropas continuem em solo alemão, a confiança nos Estados Unidos já foi abalada. Políticos, especialistas, e acadêmicos não têm informações confiáveis a respeito do que está acontecendo, resultando em um estado de confusão preocupante.

Por outro lado, a questão energética também tem um papel significante na decisão. Desde 2018 a Alemanha vem colaborando com a Rússia na construção do gasoduto Nord Stream 2. O embaixador americano para Alemanha Richard Grennel inclusive escreveu cartas para as companhias envolvidas no projeto pedindo sua interrupção e ameaçando impor sanções por causa da anexação da Crimeia pela Rússia. A resposta do governo alemão foi protestar  veementemente acusando os Estados Unidos de interferir nos interesses de países soberanos. Por outro lado, outros países da OTAN e da União Europeia também protestaram contra a construção do gasoduto.

O presidente Trump declarou “estamos protegendo a Alemanha, estamos protegendo a França, estamos protegendo todos esses países. E eles então fecham um acordo sobre um gasoduto com a Rússia em que eles estão pagando bilhões de dólares para esse país. E eu acho que isso é muito inapropriado.(…) a Alemanha é controlada completamente pela Rússia porque, com esse gasoduto, eles vão passar a receber entre 60 e 70% da sua energia da Rússia.” A dependência energética da Alemanha e de outros países da Europa por gás russo é considerada uma questão estratégica. Há receio que a Rússia possa capitalizar essa dependência politicamente tanto no nível nacional, como na Comissão Europeia e na própria OTAN.

Mas nem isso nem a ocupação da Crimeia são o que realmente interessa para os Estados Unidos. O governo americano está realmente preocupado em perder o mercado europeu para suas próprias exportações de gás natural liquefeito. Dessa forma, muito provavelmente o governo americano está procurando penalizar Alemanha por ignorar seus interesses econômicos. Contudo, a retirada das tropas americanas ainda é uma incógnita. No âmbito interno, há grande resistência política por parte das próprias forças armadas americanas e de aliados importantes. No âmbito externo, irá depender da reação da Alemanha e da União Europeia. Sendo que a construção do gasoduto já está em fase final, provavelmente há pouca margem de manobra.

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A China e a Guerra de Propaganda do COVID-19

Há países em desenvolvimento que buscam ajuda em Pequim para desenvolvimento e infraestrutura econômica. Outros, como a Rússia, sempre gostam quando a China critica os EUA, especialmente o modelo democrático. Há outros países que são pequenos e em posições estratégias frágeis no sistema mundial, que não têm coragem suficiente para criticar abertamente as políticas internas e externas chinesas. No entanto, após o COVID-19, um número surpreendente de países médios e mesmo grandes potências no sistema internacional está vem criticando abertamente o governo chinês. O exemplo mais óbvio é o Estados Unidos. Vários países vêem com o apreensão o tom das críticas do governo Trump e preferirem que os Estados Unidos mantenha um tom mais moderado e lidere uma solução global para a epidemia. Contudo, há uma preocupação considerável sobre a dependência das cadeias de valor global em produtos chineses. Nos Estados Unidos já houve vários pedidos de investigações sobre as possibilidades de romper essa dependência.

O Reino Unido aceitou a oferta da empresa chinesa Huawei para participar do desenvolvimento da rede celular 5G. Todavia, nesse momento a um debate no Parlamento britânico e na mídia pedindo para se reexaminar a participação chinesa, devido a questões de confiança. Debates semelhantes estão acontecendo não só na França e na Alemanha, mas na União Europeia como um todo. Apesar das opiniões estarem divididas, a tendência é desfavorável à China.

Na Ásia, O Japão introduziu uma lei para estimular a re-localização de empresas japonesas produzindo na China com um orçamento de 2 bilhões de dólares. A Coréia e Formosa estão estabelecendo iniciativas semelhantes. O governo da Austrália iniciou investigações independentes sobre as causas do COVID-19. A China respondeu com ameaças de um embargo econômico total. O governo australiano apoiado pela mídia ignorou as ameaças chinesas, ganhando apoio considerável da população. Mais tarde, o próprio presidente chinês Xi Jinping reconheceu que uma investigação é necessária, embora não nesse momento.

Mas e os Estados Unidos? Estão ganhando a guerra de propaganda do COVID-19? Na verdade não. O desempenho do país no combate a epidemia vem sendo duramente criticado nos editoriais os grandes veículos de comunicação e as pesquisas de opinião pública apresentam resultados negativos. Em Washington, diplomatas estrangeiros também vem tecendo críticas contundentes aos Estados Unidos, porém apenas em conversa de bastidores. Ontem, 29 de maio, o presidente Donald Trump anunciou a saída dos Estados Unidos Organização Mundial da Saúde. Contudo há questões se ele tem a autoridade necessária para tomar essa decisão. Caso ele resolva seguir com a decisão, o Congresso americano pode processa-lo em uma corte federal. De qualquer maneira, isso afeta negativamente a imagem dos Estados Unidos no sistema internacional e gera instabilidade desnecessária.

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EUA e China: Rumo a uma Guerra Fria?

Em janeiro desse ano a China e os Estados Unidos assinaram um acordo comercial chamado Phase One. O acordo prevê o aumento de compras de produtos americanos e serviços nos próximos dois anos em aproximadamente 200 bilhões de dólares, incluindo USD 32 bilhões em produtos agrícolas, USD 52,4 bilhões no setor de energia e USD 78 bilhões em produtos manufaturados. Ainda que a China não tenha mudado suas práticas comerciais abusivas desde então, até meados de março o presidente Trump continuava a elogiar várias vezes o presidente chinês Xi Jinping  pela sua liderança durante a crise do COVID-19 da China. Inclusive citou o trabalho profissional dos chineses ao mesmo tempo em que expressou o seu ilimitado respeito e amizade com o presidente Xi Jinping.

Apesar de haver esperanças dos dois países estarem entrando numa nova fase, a crise do coronavírus resultou em uma deterioração aguda em suas relações, a maior nas últimas décadas. A pandemia poderia ter resultado em uma oportunidade para o desenvolvimento de uma cooperação mais profunda, incluindo ações conjuntas para deter a epidemia, desenvolver uma vacina ou um remédio, e ainda ações conjuntas para reduzir o impacto da depressão econômica a nível mundial. 

No entanto, os dois países entraram em uma guerra retórica sobre quem é culpado pela pandemia. O governo chinês vem apresentando a narrativa que soldados americanos levaram o vírus para Wuhan por ocasião dos Jogos Militares Mundiais em outubro de 2019. Ao mesmo tempo, o presidente Trump alegou repetidas vezes que os Estados Unidos teriam provas do COVID-19 ter sido desenvolvido em um laboratório chinês na mesma cidade. Até hoje nenhum dos dois governos apresentou evidências substanciando suas narrativas. É consenso entre a comunidade científica que o vírus se desenvolveu na natureza.

Nas últimas semanas, a competição entre os dois países está indo para a arena ideológica. O governo chinês vem utilizando sua máquina de propaganda para se apresentar como um sucesso na administração da pandemia e um líder mundial confiável e responsável, que está suprindo o mundo com produtos médicos de necessidade urgente. A mídia chinesa vem atacando também o modelo de governança Ocidental, especialmente o americano, acentuando o fim da supremacia ocidental dos últimos trinta anos. Veja meu video tratando deste assunto clicando aqui. A China também desenvolveu um video ridicularizando a resposta americana à pandemia (abaixo). Outros fatores que também influenciam negativamente as relações entre os dois países são as tensões no Mar da China Meridional, a questão de Formosa e de Hong Kong, e as práticas comerciais e tecnológicas da China. Essas 

As relações entre os dois países devem piorar como consequência de dois problemas: um estrutural e outro político. O problema estrutural é proveniente de 40 anos de políticas neoliberais, que resultaram na transformação estrutural da economia americana. Nesse período, houve uma realocação de parte do setor manufatureiro dos Estados Unidos e do resto do Ocidente para a China. isso gerou dois problemas. Por um lado havia a crença que o setor de serviços absorveria a mão-de-obra dispensada do setor produtivo, o que não aconteceu. Vários trabalhadores passaram por um processo de precarização do trabalho ou “uberização” em um processo similar ao analisado pelo Paulo Gala nesse texto.

Ao mesmo tempo a China vem passando por um processo intenso de transformação econômica e social, que vem resultando no desenvolvimento de uma economia complexa. Assim, se antes a China tinha uma inserção subordinada nas cadeias produtivas globais, ao desenvolver a complexidade ela passa a concorrer diretamente com empresas americanas e europeias. O maior exemplo nesse momento é a Huawei e a rede celular 5G. Apesar da retórica econômica dizer que competição é sempre bom, os Estados Unidos vêm tentando limitar a concorrência chinesa em setores complexos. Um exemplo são as ações para limitar o acesso a componentes eletrônicos de tecnologia americana, como por exemplo o chip dos telefones celulares Huawei.

O problema político é resultante desses problemas estruturais. Durante a primeira campanha, um dos principais pontos de Trump foi a promessa de trazer de volta as manufaturas que haviam sido realocadas na China. Contudo, o processo de localização industrial segue a lógica econômica e não a lógica política, e esse processo ficou muito aquém do esperado.

O COVID-19 oferece uma oportunidade para alterar a lógica econômica em nome da segurança das cadeias produtivas e dos estoques estratégicos em tempos de emergência. Contudo, mesmo que haja uma transformação nas cadeias produtivas globais, não é possível retornar à estrutura econômica de 40 anos atrás. Para compensar custos mais elevados de mão-de-obra, a geração de empregos em um hipotético boom manufatureiro nos Estados Unidos será baixa devido ao alto nível tecnológico das linhas de produção. Assim, o problema não se resolve.

Assim, os ataques de Trump contra a China servem a três objetivo. Primeiro, para diminuir o apoio a democratas populistas. Segundo, para desviar a atenção da população do fracasso do governo americano no combate à pandemia. Terceiro, para ter um inimigo externo como elemento de campanha política. Pesquisas mostram que 31% dos eleitores americanos consideram a China como inimiga ao mesmo tempo que 23% consideram como nem inimiga nem aliada. O candidato democrata Joe Biden acusou Trump de ser condescendente demais com a China em um recente comercial de campanha (veja abaixo), prometendo ser mais duro. Levando-se em consideração que a China vem adotando uma diplomacia cada vez mais assertiva, é de se esperar que as relações sino-americanas estão longe de se acalmar.

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As Cinco Questões Geopolíticas – Parte 1

Com o COVID-19 as grandes questões da geopolítica ficaram um pouco esquecidas. Este a é o primeiro de cinco video-aulas sobre os desafios do mundo de hoje. São eles:

1. O fim do momento unipolar dos Estados Unidos

2. O fim ou redução da intensidade da globalização

3. O colapso da União Europeia

4. Os desafios do Oriente Médio

5. Mudança climática e aquecimento global

Nesta primeira parte o Prof. Berzins analisa de maneira direta e simples as questões principais sobre as transformações na divisão de poder global.

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