Arquivo do Autor: Berzins

EUA e China: Rumo a uma Guerra Fria?

Em janeiro desse ano a China e os Estados Unidos assinaram um acordo comercial chamado Phase One. O acordo prevê o aumento de compras de produtos americanos e serviços nos próximos dois anos em aproximadamente 200 bilhões de dólares, incluindo USD 32 bilhões em produtos agrícolas, USD 52,4 bilhões no setor de energia e USD 78 bilhões em produtos manufaturados. Ainda que a China não tenha mudado suas práticas comerciais abusivas desde então, até meados de março o presidente Trump continuava a elogiar várias vezes o presidente chinês Xi Jinping  pela sua liderança durante a crise do COVID-19 da China. Inclusive citou o trabalho profissional dos chineses ao mesmo tempo em que expressou o seu ilimitado respeito e amizade com o presidente Xi Jinping.

Apesar de haver esperanças dos dois países estarem entrando numa nova fase, a crise do coronavírus resultou em uma deterioração aguda em suas relações, a maior nas últimas décadas. A pandemia poderia ter resultado em uma oportunidade para o desenvolvimento de uma cooperação mais profunda, incluindo ações conjuntas para deter a epidemia, desenvolver uma vacina ou um remédio, e ainda ações conjuntas para reduzir o impacto da depressão econômica a nível mundial. 

No entanto, os dois países entraram em uma guerra retórica sobre quem é culpado pela pandemia. O governo chinês vem apresentando a narrativa que soldados americanos levaram o vírus para Wuhan por ocasião dos Jogos Militares Mundiais em outubro de 2019. Ao mesmo tempo, o presidente Trump alegou repetidas vezes que os Estados Unidos teriam provas do COVID-19 ter sido desenvolvido em um laboratório chinês na mesma cidade. Até hoje nenhum dos dois governos apresentou evidências substanciando suas narrativas. É consenso entre a comunidade científica que o vírus se desenvolveu na natureza.

Nas últimas semanas, a competição entre os dois países está indo para a arena ideológica. O governo chinês vem utilizando sua máquina de propaganda para se apresentar como um sucesso na administração da pandemia e um líder mundial confiável e responsável, que está suprindo o mundo com produtos médicos de necessidade urgente. A mídia chinesa vem atacando também o modelo de governança Ocidental, especialmente o americano, acentuando o fim da supremacia ocidental dos últimos trinta anos. Veja meu video tratando deste assunto clicando aqui. A China também desenvolveu um video ridicularizando a resposta americana à pandemia (abaixo). Outros fatores que também influenciam negativamente as relações entre os dois países são as tensões no Mar da China Meridional, a questão de Formosa e de Hong Kong, e as práticas comerciais e tecnológicas da China. Essas 

As relações entre os dois países devem piorar como consequência de dois problemas: um estrutural e outro político. O problema estrutural é proveniente de 40 anos de políticas neoliberais, que resultaram na transformação estrutural da economia americana. Nesse período, houve uma realocação de parte do setor manufatureiro dos Estados Unidos e do resto do Ocidente para a China. isso gerou dois problemas. Por um lado havia a crença que o setor de serviços absorveria a mão-de-obra dispensada do setor produtivo, o que não aconteceu. Vários trabalhadores passaram por um processo de precarização do trabalho ou “uberização” em um processo similar ao analisado pelo Paulo Gala nesse texto.

Ao mesmo tempo a China vem passando por um processo intenso de transformação econômica e social, que vem resultando no desenvolvimento de uma economia complexa. Assim, se antes a China tinha uma inserção subordinada nas cadeias produtivas globais, ao desenvolver a complexidade ela passa a concorrer diretamente com empresas americanas e europeias. O maior exemplo nesse momento é a Huawei e a rede celular 5G. Apesar da retórica econômica dizer que competição é sempre bom, os Estados Unidos vêm tentando limitar a concorrência chinesa em setores complexos. Um exemplo são as ações para limitar o acesso a componentes eletrônicos de tecnologia americana, como por exemplo o chip dos telefones celulares Huawei.

O problema político é resultante desses problemas estruturais. Durante a primeira campanha, um dos principais pontos de Trump foi a promessa de trazer de volta as manufaturas que haviam sido realocadas na China. Contudo, o processo de localização industrial segue a lógica econômica e não a lógica política, e esse processo ficou muito aquém do esperado.

O COVID-19 oferece uma oportunidade para alterar a lógica econômica em nome da segurança das cadeias produtivas e dos estoques estratégicos em tempos de emergência. Contudo, mesmo que haja uma transformação nas cadeias produtivas globais, não é possível retornar à estrutura econômica de 40 anos atrás. Para compensar custos mais elevados de mão-de-obra, a geração de empregos em um hipotético boom manufatureiro nos Estados Unidos será baixa devido ao alto nível tecnológico das linhas de produção. Assim, o problema não se resolve.

Assim, os ataques de Trump contra a China servem a três objetivo. Primeiro, para diminuir o apoio a democratas populistas. Segundo, para desviar a atenção da população do fracasso do governo americano no combate à pandemia. Terceiro, para ter um inimigo externo como elemento de campanha política. Pesquisas mostram que 31% dos eleitores americanos consideram a China como inimiga ao mesmo tempo que 23% consideram como nem inimiga nem aliada. O candidato democrata Joe Biden acusou Trump de ser condescendente demais com a China em um recente comercial de campanha (veja abaixo), prometendo ser mais duro. Levando-se em consideração que a China vem adotando uma diplomacia cada vez mais assertiva, é de se esperar que as relações sino-americanas estão longe de se acalmar.

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O Câmbio, o Dólar, e o COVID19

O COVID19 trouxe várias incertezas para a economia mundial e brasileira. O real desvalorizou 32% em relação ao dólar em 2020. Neste video, o Prof. Berzins explica em linguagem acessível para quem não é economista os tipos de taxa de câmbio, os motivos da volatilidade no Brasil e o que esperar no futuro próximo.

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Um Golpe à Italiana (The Italian Job)

Michael Caine in The Italian Job (1969)

Comédia de 1969, leve e gostosa. Michael Caine lidera uma gang de ingleses cockney para roubar 4 milhões de dólares em ouro (31 milhões nos dias de hoje) que a FIAT iria receber da China. A máfia italiana também está interessada. Inspirou o filme “Uma Saída de Mestre” de 2003.

Diretor: Peter Collinson
Com: Michael Caine, Benny Hill, Noel Coward.

Minha avaliação:

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A Day with the Boys

É um curta experimental, . visualmente bonito e rico. Filmado pelo legendário László Kovács, mostra a inocência da infância juntamente com o potencial para violência. Inspirou o filme George Washington.

Diretor: Clu Gulager
Cinematografia: Laszlo Kovacs
Com: Ricky Bender, Artie Conkling, William Elliott, Jack Grindle, John Gulager, Mike Hertel, James Kearce, John McCaffrey, Mark Spirtos, Craig Williams

18 minutos

Minha Avaliação: 

Você pode assistir o filme todo clicando aqui.

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As Cinco Questões Geopolíticas – Parte 1

Com o COVID-19 as grandes questões da geopolítica ficaram um pouco esquecidas. Este a é o primeiro de cinco video-aulas sobre os desafios do mundo de hoje. São eles:

1. O fim do momento unipolar dos Estados Unidos

2. O fim ou redução da intensidade da globalização

3. O colapso da União Europeia

4. Os desafios do Oriente Médio

5. Mudança climática e aquecimento global

Nesta primeira parte o Prof. Berzins analisa de maneira direta e simples as questões principais sobre as transformações na divisão de poder global.

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O Espião Trapalhão

Comédia antiga excelente. Matthau é um agente da CIA que é transferido para um trabalho burocrático por causa do seu chefe incompetente. Como vingança ele começa a expor como as agências de inteligência realmente funcionam e como os incompetentes tomam as decisões. De trapalhão só o título.

Título Original: Hopscotch
Diretor: Ronald Neame
Com: Walter Matthau, Glenda Jackson, Sam Waterston, Ned Beatty, Herbert Lom

104 minutes

Minha Avaliação: 

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Complexidade Econômica no Báltico: Liberalismo ou Não?

Escrito com Paulo Gala, esse artigo apareceu primeiro em sua página. Reproduzo aqui.

Ultimamente a Estônia tem sido citada com uma certa freqüência como um exemplo de Neoliberalismo que deu certo. A narrativa é simplória. A Estônia durante a União Soviética era um país paupérrimo, com baixa expectativa de vida e inflação que ultrapassava 1000%. Com o colapso da União Soviética, o neoliberal Mart Laar aplicou as idéias de Milton Friedman do livro “Free to Choose”, fez as reformas fiscal, monetária e bancária e promoveu a abertura comercial. Como resultado, a renda da população foi multiplicada de US$ 5.000,00 para US$ 35.000,00. Essa narrativa faz meio que um samba do crioulo doido com a história econômica da Estônia para tentar provar que liberalismo por si só é suficiente para promover o desenvolvimento. Para parafrasear o Vinicius de Moraes, como se dizia antigamente o buraco é mais embaixo. Durante a União Soviética não havia inflação pois os preços eram controlados pelo governo. Podia não haver o que comer, mas inflação não era um problema. 

Durante a fase da USSR, a Letônia era a república mais desenvolvida da regiao graças ao seu alto nível relativo de industrialização e complexidade econômica. Assim como seus vizinhos Letônia e Lituânia, a Estônia adotou logo após a independência o que foi chamado de Terapia de Choque (Shock Therapy), tal qual prescrito por Jeffrey Sachs. O pessoal responsável pela política econômica fez cursos rápidos de introdução à economia nos Estados Unidos. Havia muita falta de competência. Um ex-presidente do Banco Central da Letônia uma vez disse fazendo bravata que “isso é tudo que precisei saber sobre economia”, enquanto mostrava um livro de introdução à macroeconomia. A inflação de 1000% ao ano e uma forte crise economica foram resultado da implementação rápida dessa terapia de choque após o colapso da URSS. 

Nesse período, o rationale nos três Países Bálticos era de que a adoção de políticas neoliberais iria agradar o setor financeiro, os juros seriam baixos garantindo investimentos e o desenvolvimento ocorreria automaticamente. A economia deveria se desindustrializar para dar lugar ao setor de serviços. O consenso era que o Báltico iria se transformar em um centro financeiro ultra liberal, com os três países concorrendo entre si para servir como ponte entre os países da ex-URSS e o ocidente, iria desenvolver os setores de transporte, para escoar as exportações também da ex-URSS, e imobiliário. As políticas liberais dos anos 1990 nos três Países Bálticos resultaram num processo profundo de desindustrialização e instabilidade econômica que diminui a complexidade produtiva da região, quem seguiu mais a risca a estrategia foi a Letonia (ou Latvia).

Em 1994, graças às políticas mais liberais, um país como Estonia com uma população de 1.5 milhão de habitantes tinha 42 bancos e quase nenhuma indústria. Com a crise da Rússia em 1998, as economias dos Países Bálticos foram ararstados e entraram e profunda crise tambem. É nesse período de estagnacao que os Países Bálticos começam a adotar o modelo regulatório da União Européia com o objetivo de se tornarem membros, o que ocorre em 2004. A partir de 1999, a Estônia foi o primeiro país báltico a perceber a importância de se estabelecer uma economia complexa e industrializada para diminuir a instabilidade econômica e promover o desenvolvimento sustentável no longo prazo. Foi no segundo governo de Mart Laar (e não no primeiro) que a Estônia adotou uma política pragmática de suporte ao desenvolvimento tecnológico de sua economia, sobretudo inovações, passando a procurar aumentar o nível de sua complexidade produtiva. Dois exemplos de sucesso são o Skype e o Transferwise.

A Letonia dos três era o mais rico e mais desenvolvido na epoca da URSS por ter a economia mais complexa da regiao. Os tres paises adotaram as mesmas politicas liberais. Hoje a Lituania e a Estonia estao bem acima da Letonia em termos de valor adicionado manufatureiro e voltaram a se industrializar. A Letonia (ou Latvia) saiu na frente como economia mais complexa na epoca da URSS e agora perde espaco com desindustrilizacao e perde a corrida da renda per capita. As politicas liberais adotadas nos tres paises hoje sao praticamente as mesmas, sendo a principal diferenca o foco na industria e desenvolvimento tecnologico na Estonia e Lituania. A plataforma na Letonia nos ultimos anos foi o desenvolvimento de financas, transporte e setor imobiliario, servindo como ponte entre ocidente e Russia; tendo como resultado a perda de complexidade da economia (lembrando que a Letonia era quem produzia todos os produtos eletro-eletronicos para a antiga URSS: televisores, radios, etc e industria militar, que hoje sumiu). A Estônia e Lituânia, que fortaleceram sua industria nos ultimos anos, avancaram muito mais. Dentro das três estrategias a de aumento de complexidade foi a que resultou melhor.

A experiência da Estônia (e também da Letônia e da Lituânia) mostra que liberalizar a economia sem pensar na questão da complexidade econômica e na industrialização resulta em instabilidade e em crescimento anêmico. O que importa é um sistema regulatório que seja favorável aos negócios, mas que ao mesmo tempo estimule o desenvolvimento tecnlógico, de competências e inovação. O objetivo tem que ser o aumento qualitativo da complexidade da economia. A experiência mostra que o papel de pesquisa e desenvolvimento em parceria com universidades e centros de pesquisa é fundamental. Também, que o agronegócio e atividades extrativistas, por terem baixa complexidade, não são suficientes para promover desenvolvimento. Esse setores têm que ser parte de uma cadeia complexa, que resulte na produção de bens de consumo finais de alto valor agregado.

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